VOVÔ CARLITO Versão 1.2
“Quando
você nasceu, todos riam enquanto você chorava, viva sua vida de um jeito que
quando você morra, todos chorem enquanto você ri.”
Foram
com essas palavras que ouvi do Pastor Carlos Henrique que me despedi de meu avô
no ultimo dia cinco. Estive com o
Carlito uma semana antes do seu falecimento, ele estava acamado, vitimado por
um AVC que atingiu grande parte do seu cérebro, no hospital eu incentivado pela
família tentava conversar com ele, falava alto, quase gritando no seu ouvido,
ele apertou minha mão firme e me olhou nos olhos, não disse nada pois não
conseguia mas entendi perfeitamente o que ele queria me dizer, eu estava
incomodando, o Carlito não gostava de barulho, dos aproximados 15 anos que
convivemos não o vi falando alto uma única vez. Dias antes ele me confidenciou
um sonho que teve, que nele ele estava adentrando num restaurante e que lá
estavam todos os seus amigos já mortos, ou já morridos, o Mister Jaime, o Jorge
do comercial Nize, seu Antônio Martins, o sentimento que lhe veio foi de paz e
de alegria, assim e nesse lugar eu o imagino nesse momento.
Em
1988 ele sempre apaixonado por política se candidatou a uma vaga de vereador em
Carolina e eu mais que depressa me prontifiquei a ser seu cabo eleitoral, na
verdade era uma brincadeira, uma criança de oito anos não conseguiria convencer
ninguém a votar em ninguém, me limitava a colar cartazes nos muros e na minha
bicicleta, o acompanhava nos comícios e sempre que ele ia discursar suas
propostas, as pessoas desviavam suas atenções umas paras outras. Político que não
fala alto não é ouvido. Político que não fala alto não é ouvido nem lembrado.
Político que não grita não é ouvido nem lembrado nem votado. No outro dia na
praça tinha sempre um ou outro que dele se aproximava pedindo cigarro, dinheiro
em troca do voto. Ele muito serenamente tentava explicar que aquilo não era o
certo. Político que não compra voto não é ouvido, político que não compra voto
não é ouvido nem lembrado. Político que não se corrompe não é ouvido nem
lembrado nem votado. Carlito não ganhou, como poderia? mas teve a sorte de ter
apoiado o candidato a prefeito que ganhou e assim conseguiu um emprego na
prefeitura.
Certa
vez o circo chegou em Carolina e logo na estreia fomos eu e ele assistir ao
espetáculo, adorei o palhaço, os malabares, o trapézio, sai de lá com a
convicção de que queria trabalhar no circo, naquele circo, queria ir embora com
eles e fui do Alto da Colina até a porta de casa tentando convencer o Carlito a
pedir para minha avó que ela me deixasse viajar com o circo. Ele não queria
desfazer meu encanto e foi devagar tentando me convencer que eu teria primeiro que
terminar meus estudos, no outro dia pela manhã antes deu falar com minha avó
nós voltamos ao circo, a lona levantada, o palhaço sem maquiagem e ainda
xingando a malabarista, o leão fedorento, enfim, tudo muito diferente do que
tinha visto no dia anterior. O Carlito sabia convencer pelos argumentos e pelos
exemplos, quem tem essas duas armas realmente não precisa falar alto.
E
julho chegava, antes dos tios e primos chegarem era ele que me levava para
praia, lá chegando sentava numa barraca e tomava um refrigerante enquanto eu
caia para água, de tempos em tempos eu ia onde ele tava para mostrar que estava
tudo bem e era fácil encontra-lo, era o único usando calças, era o único bem
trajado, era o único falando baixo. Depois os tios chegavam e ele era
imediatamente esquecido, dispensado, deixado num canto, já não precisava mais
dele, só era lembrado numa piada sobre ter perdido as eleições, sobre seus
lápis de pintar bigode ou na hora de pedir dinheiro pro sorvete, sempre
afastado ou no seu quartinho, sem se impor, sem vontades, sem opiniões. E o mês
acabava e o neto voltava pro seu colo, ele sempre me aceitava de volta pois
sabia o tempo todo que aquilo era só um empréstimo.
Meu
avô era estranho, enquanto o dos meus colegas ouvia Amado Batista o meu gostava
de um tal de Bach, Vivaldi, gente que nem cantava. Enquanto todos iam para
igreja católica ele ia para sessão do Seu Adonias, enquanto corriam para
assistir o jogo da copa de 94 ele assistia o programa da LBV. Nunca entendi
exatamente no que ele trabalhava ou do que vivia, sabia que andava muito e que
tinha uma casa alugada. Nunca entendi o que ele ia fazer em Brasília de tempos
em tempos, certa vez me disseram que ele ia lá conversar com o Tancredo pra
trazer um cinema pra Carolina, sempre que ele voltava trazia para mim uma lata
de ameixa em conserva e um pacote de chicletes.
Numa
dessas por um ou outro motivo ele e minha avó se separaram, acordei e vi as
coisas dele num outro quarto, não entendi o que tinha acontecido pois não ouvi
briga, não ouvi baixarias, não houve discussão, separaram de uma maneira que
nem eu que morava na mesma casa fiquei sabendo, mas continuou morando lá, não
queria sair de perto de mim e da minha avó, pensava que só nós dois não iríamos
dar conta de se virar sem ele. A noite ele chorava muito, eu não sabia se de
amor, ódio ou arrependimento, no quarto ao lado e sem forro eu chorava junto, e
chorávamos juntos noite à dentro, cada um pelos seus motivos até o sono falar
mais alto. Ai ele adoeceu, da cabeça já que essas caminhadas diárias lhe deram
saúde de criança, ele teve que ir fazer tratamento em Brasília, antes de ir ele
me chamou até o meio da rua e me apontou um barraco azul descendo a ladeira,
disse que era meu, depois pegou um radio toca-fitas e me entregou, ele achava
que ia morrer por aqueles dias, depois disso também me mudei de Carolina, a
casa vendi por R$ 2.000,00 e o rádio emprestei para um amigo que nunca mais me
devolveu.
Só
hoje percebo que essa não foi bem essa a herança que ele me deixou, hoje falo
baixo, herdei seu temperamento, o coração é frágil e inconsequente e ainda um bem
pouco da sua humildade, esse povinho que nem canta, diariamente não canta no
som do meu carro. Que descanse em paz o meu avô, se
ele me ouvisse agora, eu diria: - Carlito, eu preciso te contar, no seu velório
foi muita gente, amigos, conhecidos, parentes, muita gente sofreu sua
perda, muita gente lamentou sua morte, em especial as três filhas, três
heroínas, três guerreiras que com todo o orgulho que me cabe no peito chamo de
tias. E sua criação foi boa, seu neto tá bem, se formou, passou em concursos e
é muito respeitado aonde quer que vá. Que descanse em paz o meu avô!




Que lindo relato. Obrigado por compartilhar ♥️
ResponderExcluir