quinta-feira, 11 de outubro de 2012

VOVÔ CARLITO



VOVÔ CARLITO  Versão 1.2

           
            “Quando você nasceu, todos riam enquanto você chorava, viva sua vida de um jeito que quando você morra, todos chorem enquanto você ri.”

            Foram com essas palavras que ouvi do Pastor Carlos Henrique que me despedi de meu avô no ultimo dia cinco.  Estive com o Carlito uma semana antes do seu falecimento, ele estava acamado, vitimado por um AVC que atingiu grande parte do seu cérebro, no hospital eu incentivado pela família tentava conversar com ele, falava alto, quase gritando no seu ouvido, ele apertou minha mão firme e me olhou nos olhos, não disse nada pois não conseguia mas entendi perfeitamente o que ele queria me dizer, eu estava incomodando, o Carlito não gostava de barulho, dos aproximados 15 anos que convivemos não o vi falando alto uma única vez. Dias antes ele me confidenciou um sonho que teve, que nele ele estava adentrando num restaurante e que lá estavam todos os seus amigos já mortos, ou já morridos, o Mister Jaime, o Jorge do comercial Nize, seu Antônio Martins, o sentimento que lhe veio foi de paz e de alegria, assim e nesse lugar eu o imagino nesse momento.
            Em 1988 ele sempre apaixonado por política se candidatou a uma vaga de vereador em Carolina e eu mais que depressa me prontifiquei a ser seu cabo eleitoral, na verdade era uma brincadeira, uma criança de oito anos não conseguiria convencer ninguém a votar em ninguém, me limitava a colar cartazes nos muros e na minha bicicleta, o acompanhava nos comícios e sempre que ele ia discursar suas propostas, as pessoas desviavam suas atenções umas paras outras. Político que não fala alto não é ouvido. Político que não fala alto não é ouvido nem lembrado. Político que não grita não é ouvido nem lembrado nem votado. No outro dia na praça tinha sempre um ou outro que dele se aproximava pedindo cigarro, dinheiro em troca do voto. Ele muito serenamente tentava explicar que aquilo não era o certo. Político que não compra voto não é ouvido, político que não compra voto não é ouvido nem lembrado. Político que não se corrompe não é ouvido nem lembrado nem votado. Carlito não ganhou, como poderia? mas teve a sorte de ter apoiado o candidato a prefeito que ganhou e assim conseguiu um emprego na prefeitura.
            Certa vez o circo chegou em Carolina e logo na estreia fomos eu e ele assistir ao espetáculo, adorei o palhaço, os malabares, o trapézio, sai de lá com a convicção de que queria trabalhar no circo, naquele circo, queria ir embora com eles e fui do Alto da Colina até a porta de casa tentando convencer o Carlito a pedir para minha avó que ela me deixasse viajar com o circo. Ele não queria desfazer meu encanto e foi devagar tentando me convencer que eu teria primeiro que terminar meus estudos, no outro dia pela manhã antes deu falar com minha avó nós voltamos ao circo, a lona levantada, o palhaço sem maquiagem e ainda xingando a malabarista, o leão fedorento, enfim, tudo muito diferente do que tinha visto no dia anterior. O Carlito sabia convencer pelos argumentos e pelos exemplos, quem tem essas duas armas realmente não precisa falar alto. 
            E julho chegava, antes dos tios e primos chegarem era ele que me levava para praia, lá chegando sentava numa barraca e tomava um refrigerante enquanto eu caia para água, de tempos em tempos eu ia onde ele tava para mostrar que estava tudo bem e era fácil encontra-lo, era o único usando calças, era o único bem trajado, era o único falando baixo. Depois os tios chegavam e ele era imediatamente esquecido, dispensado, deixado num canto, já não precisava mais dele, só era lembrado numa piada sobre ter perdido as eleições, sobre seus lápis de pintar bigode ou na hora de pedir dinheiro pro sorvete, sempre afastado ou no seu quartinho, sem se impor, sem vontades, sem opiniões. E o mês acabava e o neto voltava pro seu colo, ele sempre me aceitava de volta pois sabia o tempo todo que aquilo era só um empréstimo.
            Meu avô era estranho, enquanto o dos meus colegas ouvia Amado Batista o meu gostava de um tal de Bach, Vivaldi, gente que nem cantava. Enquanto todos iam para igreja católica ele ia para sessão do Seu Adonias, enquanto corriam para assistir o jogo da copa de 94 ele assistia o programa da LBV. Nunca entendi exatamente no que ele trabalhava ou do que vivia, sabia que andava muito e que tinha uma casa alugada. Nunca entendi o que ele ia fazer em Brasília de tempos em tempos, certa vez me disseram que ele ia lá conversar com o Tancredo pra trazer um cinema pra Carolina, sempre que ele voltava trazia para mim uma lata de ameixa em conserva e um pacote de chicletes.
            Numa dessas por um ou outro motivo ele e minha avó se separaram, acordei e vi as coisas dele num outro quarto, não entendi o que tinha acontecido pois não ouvi briga, não ouvi baixarias, não houve discussão, separaram de uma maneira que nem eu que morava na mesma casa fiquei sabendo, mas continuou morando lá, não queria sair de perto de mim e da minha avó, pensava que só nós dois não iríamos dar conta de se virar sem ele. A noite ele chorava muito, eu não sabia se de amor, ódio ou arrependimento, no quarto ao lado e sem forro eu chorava junto, e chorávamos juntos noite à dentro, cada um pelos seus motivos até o sono falar mais alto. Ai ele adoeceu, da cabeça já que essas caminhadas diárias lhe deram saúde de criança, ele teve que ir fazer tratamento em Brasília, antes de ir ele me chamou até o meio da rua e me apontou um barraco azul descendo a ladeira, disse que era meu, depois pegou um radio toca-fitas e me entregou, ele achava que ia morrer por aqueles dias, depois disso também me mudei de Carolina, a casa vendi por R$ 2.000,00 e o rádio emprestei para um amigo que nunca mais me devolveu.

            Só hoje percebo que essa não foi bem essa a herança que ele me deixou, hoje falo baixo, herdei seu temperamento, o coração é frágil e inconsequente e ainda um bem pouco da sua humildade, esse povinho que nem canta, diariamente não canta no som do meu carro. Que descanse em paz o meu avô, se ele me ouvisse agora, eu diria: - Carlito, eu preciso te contar, no seu velório foi muita gente, amigos, conhecidos, parentes, muita gente sofreu sua perda, muita gente lamentou sua morte, em especial as três filhas, três heroínas, três guerreiras que com todo o orgulho que me cabe no peito chamo de tias. E sua criação foi boa, seu neto tá bem, se formou, passou em concursos e é muito respeitado aonde quer que vá. Que descanse em paz o meu avô!